segunda-feira, 18 de julho de 2011

Bruce Dickinson - The Chemical Wedding - 1998


Em 1998, após o sucesso que Bruce Dickinson teve com o álbum “Accident of Birth, que foi uma volta triunfal dele ao mundo do Heavy Metal, Bruce resolveu lançar o sucessor, Chemical Wedding, e com o mesmo time, Adrian Smith, nas guitarras, Roy Z, guitarra e produção, Eddie Casillas no baixo e Dave Ingraham na bateria, o disco foi gravado na Califórnia.


O disco seguiu a mesma linha musicalmente do Accident of Birth, porém com um pouco mais de peso, devido ao fato que Roy e Adrian usaram uma corda de baixo na primeira corda da guitarra, fazendo com que elas soassem extremamente pesado, mas no geral o álbum soou na época como o álbum que o Iron Maiden não gravou, isto é, aquela velha sonoridade clássica do Maiden com a voz de Bruce, as guitarras dobradas, ótimos solos, ótimos coros (sim coros), refrão melódico e algumas músicas épicas.


Em termos da arte da capa, dessa vez não chamaram Derek Riggs, creio que estava na hora de fazer algo diferente para tudo não soar tão maçante. Para não mudar a música, então que mudem a arte da capa.


Foi então que Bruce resolveu usar a obra de William Blake, poeta, pintor e artista do século XIX, já que muitas letras do álbum foram baseadas em suas poesias. O encarte é recheado de pinturas de William Blake, retratando temas como a batalha entre o bem e o mal, apocalipse e a esperança de um mundo melhor, no caso a Nova Jerusalém, que seria o mundo no qual William acreditava ser o verdadeiro paraíso que o homem ainda não havia descoberto. Enfim, nas letras do disco você vai encontrar muitas referências de alquimia e kabbalah hermética, até porque William era ocultista. Criando um novo mundo com as cinzas do velho mundo.


O álbum abre com a pesada e agressiva “King in Crimson”, que é obviamente uma metáfora do diabo, o rei das trevas, que na verdade vive aqui entre os homens. Representa algum indivíduo que está prestes a dominar o mundo e destruir tudo, para saciar todos os seus desejos megalomaníacos. Essa música fala sobre qualquer líder que usa sua influência para agir de maneira egoísta, políticos poderosos e influentes que governam e governaram mundo à fora, como Hitler, Mussolini, Bush, Genhis Khan entre outros. Esses líderes, esses reis de vermelho, vindo das trevas levarão a humanidade ao seu fim.


A segunda música é a faixa título “Chemical Wedding”. Inspirado no livro de Christian Rosenkreutz , “The Chymical Wedding”. Christian, que pode ser um personagem fictício, pois ninguém sabe ao certo, foi o suposto fundador da Ordem Rosa Cruz. Esse livro é o terceiro manifesto dessa Ordem, que conta, em forma de um romance como o autor foi convidado para um Castelo cheio de milagres, onde havia um rei e uma rainha (o noivo e a noiva) no qual iriam praticar o Chymical Wedding (casamento alquímico). O “Chymical” dessa maneira mesmo. Um modo antigo de escrever essa palavra. No livro é descrito todo ritual para conseguir executar o casamento alquímico, que inclui sacrifício, morte e ressurreição, no caso o Casamento seria o ritual de passagem, uma espécie de caminho para atingir o nirvana, a travessia do abismo de Daath, o fato de você atingir o ápice de sua força espiritual. No refrão Bruce canta, “então nós deitamos, deitamos no mesmo túmulo, nosso casamento alquímico”. Esse túmulo pode ser considerado o local onde ocorria o ritual de passagem. A grande união entre o Sol e a Lua (Tiferet e Yesod).


A terceira faixa é o single e a música mais conhecida do álbum, “The Tower”, no qual a letra fala sobre a prática do Tarot, a torre representa uma das cartas do Tarot, assim como outras cartas são mencionadas na letra como o Sacerdote, a Lua, o Sol, o tolo, o Mago, os Amantes, menciona também o homem enforcado (sorte no hinduísmo). Faz uma poesia ou uma espécie de jogo com os decks do Tarot, representando também um “ritual de união” (ops, Casamento Alquímico). “E 12 são os pagãos que mapearam o céu”, isso menciona também a astrologia e os 12 signos encontrados na mesma.


A quarta faixa é o segundo single do disco, “Killing Floor”, primeira faixa do álbum escrito por Adrian e Bruce. Na letra da música é mencionado que Satan abandonou seu andar da matança, no caso o Inferno, e na letra o autor pergunta, “Quem está balançando o berço, se Ele não está”, dando a entender que ele resolveu sair do mundo das trevas e fazer uma visita na Terra para acertar suas contas com a humanidade ou no caso, com a obra do grande Criador.


A quinta música é a épica “Book of Thel”, a mais longa do disco e com ótimos solos de guitarras, coros e as introduções típicas das velhas canções épicas do Maiden. Inspirado por uma poesia de William Blake, inclusive trechos de um de seus trabalhos é lido, durante o disco, por nada mais nada menos que o cantor e um dos pioneiros do shock rock, Arthur Brown, no qual Bruce admira muito.


Uma grande influência no trabalho de William Blake em suas poesias era a Alquimia, no qual ele praticava. Então você pode muito bem relacionar a suposta Terra Prometida de Nova Jerusalém com todo esse conceito alquímico, que transformaria o chumbo da ignorância no Ouro da sabedoria.


A letra, baseada no poema de mesmo nome de Blake descreve algumas reflexões de Thel (vontade em grego), solitária e frágil filha de Mne Seraphim. Thel questiona o porque que a vida é cheia de tristezas e destruição, então acaba sendo necessário que ela descubra e perceba que a alegria existe em certos lugares, que estão escondidas e surgem durante o despertar da Serpente, da Kundalini, na espinha dorsal, para finalmente encontrar a sabedoria e a alegria do mundo. Porém Thel acaba rejeitando a idéia de atravessar o abismo de Daath, do seu próprio sacrifício e opta por voltar para seu mundo monótono, alienado e inocente.


A próxima faixa, “Gates of Urizen”, uma balada bem ao estilo que Bruce costuma compor. Urizen segundo a mitologia de William Blake é o homem que representa a razão e a ordem, ele é mostrado como um arquiteto que construiu o universo, porém ele não é tão bondoso quanto se imagina, e pode se dizer que ele é bastante cruel e opressor em relação a criatividade e o amor livre, soa como o governo oprimindo o pessoal da contracultura. A letra descreve o personagem Urizen, como se ele tivesse criado algo para todos, porém em troca, você terá que obedecê-lo.


Logo em seguida, tem a climática “Jerusalém”, que alterna entre momentos mais folk e momentos bem pesados com grandes solos de guitarras. A letra descreve a esperança da aparição da Terra Prometida, do "mundo" genial de William Blake, A Nova Jerusalém, e como tudo será melhor nesse local, um verdadeiro paraíso. Bruce questiona se a humanidade seria capaz de criar esse lugar mesmo no meio de todo o caos.


“Trumpets of Jericho”, tem uma letra que fala da ganância e a maldade do homem que está tão crescente, que nada pode destruir essa “parede negativa” que surgiu no coração dos homens. Representa o fracasso causado pelo péssimo uso do poder. O apego ao "material de chumbo" enquanto a "luz dourada" continua brilhando e ninguém dá a mínima importância.


A próxima canção é “Machine Man”, a outra faixa escrita na parceiria de Bruce com Adrian Smith, tem um riff que lembra a famosa canção do Maiden, “Powerslave”. A música descreve o mal que as máquinas e toda a modernidade fez para o homem, e como ele se tornou dependente da mesma, deixando de aproveitar as coisas boas da vida e tendo sua alma enferrujada. Fato interessante é que no meio da música Bruce fala palavras impossíveis de entender numa velocidade imensa. Muito se questionou na época sobre o que ele estaria dizendo, e em uma entrevista ele confirmou que na verdade estava apenas lendo uma lista telefônica.


A última faixa é “The Alchemist”, que descreve o exato momento após o apocalipse, interessante como Bruce juntou o dia do Julgamento Final, todo caos, todo o sofrimento, o fim do mundo com o ritual do clímax espiritual da Ordem Da Rosa Cruz, mas não adianta culpar o mago ou o alquimista pela falha porque o "fim" é o karma de toda a humanidade e não do indivíduo. Todas essas dificuldades sempre representam a travessia do abismo, a lavagem da alma, a limpeza do mundo com a chuva prateada. Prata porque representa a Lua, o lado feminino, uma água límpida e transparente sem as impurezas ou coloração. E novamente no fim da música Bruce canta “então nós deitamos, deitamos no mesmo túmulo, nosso casamento alquímico”. Deixando uma livre interpretação sobre o que aconteceu, a humanidade se salvou, superou o temido abismo de Daath e foi parar na Terra Prometida, ou não?


Após o lançamento do disco, Bruce saiu em mais uma turnê com sua banda, onde obteve muito sucesso e inclusive lançou um show gravado no Brasil, em CD, no caso o Scream for me Brazil.


Terminando a turnê, em 1999 Bruce e Adrian acabariam voltando ao Maiden. Provavelmente Steve deu o braço a torcer e admitiu que o Iron sem os dois não é a mesma coisa, já que Bruce lançou dois discos simplesmente geniais e superiores tanto tecnicamente como em termos de temática aos que o Iron Maiden lançou nos anos 90 na ausência dos dois músicos.

2 comentários:

  1. Ótimo post! A análise de cada uma das músicas deixou o post super completo!

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