No coração do Centro de Computação Quântica Global, nas profundezas do Sillicon Valley na Califórnia, o Professor Arthur Finch, um luminar da matemática computacional, e a sua brilhante aluna, Anya Karmov, estavam à beira de iniciar um projeto que mudaria o curso da história humana - para pior.
Nascido numa fria manhã de Novembro de 1960, em Cambridge, Inglaterra, Arthur Finch cedo revelou uma mente dotada para os números e para a lógica abstrata. Filho único de um professor universitário de física teórica e de uma bibliotecária apaixonada por história da matemática, Arthur cresceu imerso num ambiente intelectualmente estimulante, onde as paredes pareciam respirar equações e os livros sussurravam segredos milenares.
Desde tenra idade, manifestou um fascínio invulgar por padrões e sequências, preferindo a companhia dos teoremas aos jogos infantis. Aos 10 anos, já devorava os "Principia Mathematica" de Whitehead e Russell, não por imposição, mas por uma sede insaciável de compreender as estruturas fundamentais do pensamento.
A sua trajetória acadêmica foi meteórica. Com apenas 16 anos, ingressou na Universidade de Cambridge, optando, naturalmente, por Matemática Pura. Distinguiu-se rapidamente, não apenas pela sua inteligência fulgurante, mas também por uma dedicação quase monástica aos seus estudos. Era conhecido por passar horas a fio absorto em complexos problemas matemáticos, alheio ao mundo exterior, muitas vezes esquecendo-se de comer ou dormir. Esta obsessão, que mais tarde se manifestaria de forma trágica, já era uma marca distintiva da sua personalidade.
Após o doutoramento em Matemática Computacional, com uma tese inovadora sobre algoritmos de complexidade infinita, Arthur abraçou a carreira académica. Tornou-se professor catedrático na prestigiada Universidade de Zurique, onde se destacou como um líder incontestável na sua área. As suas publicações em revistas científicas de renome eram recebidas com reverência, e os seus seminários eram disputados por alunos de todo o mundo, ansiosos por beber da sua sabedoria.
Com a idade mais avançada, bastante premiado e consagrado mundialmente, Arthur Finch resolveu explorar novos horizontes no novo continente. Mais precisamente, no Sillicon Valley, na California. Onde, além de ministrar aulas e palestras nas principais universidades da região, mantinha inúmeros projetos envolvendo ciências exatas.
Contudo, para além do brilho intelectual, Arthur Finch era um homem socialmente isolado e emocionalmente distante. A sua vida parecia se resumir ao mundo abstrato da matemática. As relações interpessoais eram-lhe estranhas, e demonstrava uma certa impaciência com as "trivialidades" da vida cotidiana. Era considerado excêntrico pelos colegas, e admirado, mas também temido pelos alunos.
O Professor Arthur Finch entrou para a história não como um herói da ciência, mas como um trágico exemplo de como o gênio, desprovido de sabedoria e responsabilidade, pode conduzir à ruína. A sua biografia, curta e intensa como um meteoro, serve como um sombrio conto de advertência sobre os perigos da ambição descontrolada e a necessidade imperativa de equilibrar a busca pelo conhecimento com a prudência e a consideração pelas consequências humanas. O seu legado, paradoxalmente, reside não nas equações que desvendou, mas no silêncio ensurdecedor que se seguiu à sua mais audaciosa e fatal contagem.
Arthur, um homem consumido pela busca de limites matemáticos, tinha-se tornado obcecado pelo Googolplex, um número inimaginavelmente grande, tão vasto que é maior que o número de átomos no universo observável. É 10 elevado à potência de um Googol, onde um Googol já é 1 seguido de cem zeros.
Não era apenas o tamanho incompreensível do número que o fascinava, mas a ideia de materializar sua contagem e de alguma forma compreendê-lo através da computação.
Trabalhando no Sillicon Valley, Arthur viu a oportunidade de concretizar um projeto megalómano de contagem do Googolplex, utilizando toda a sua estrutura tecnológica.
Nascida na Rússia, Anya Karmov, era aluna do professor e sua assistente. Anya despontou como uma grande promessa na ciência da computação quântica desde cedo. A sua mente analítica e a sua intuição invulgar para algoritmos complexos chamaram a atenção do Professor Finch, que a acolheu.
Apesar disso, a aluna e assistente demonstrou certa cautela com a ideia de Arthur.
"Professor, ainda acredito que isto é insensato," Anya disse, enquanto os dois se encontravam diante do "Colossus Z", o computador quântico mais poderoso já construído, um labirinto de circuitos supercondutores e tanques de hélio líquido que ocupava vários andares do complexo.
"Insensato, Anya?" Arthur riu, com um tom seco. "Ou audacioso? Não estamos tentando atingir o Googolplex, apenas contar na sua direção. O objetivo é saborear o infinito, mesmo que seja apenas uma pequena amostra."
Arthur tinha conseguido convencer a Comissão Global de Recursos Energéticos (CGRE), uma organização governamental mundial, a financiar o seu projeto. O seu argumento era engenhoso, embora perigosamente falacioso: "Se compreendermos os limites da computação em escala tão vasta, poderemos desbloquear novos paradigmas na eficiência energética e na própria computação." A CGRE, desesperada por soluções para a crescente crise energética global, mordeu a isca.
Assim, sob o pretexto de investigação científica crucial, o Projeto Googolplex nasceu. O Colossus Z foi reprogramado para uma única tarefa: contar números inteiros, começando pelo 1, e prosseguindo até o impossível.
O início foi quase imperceptível. O Colossus Z, com o seu poder de processamento inimaginável, começou a vomitar números a uma velocidade estonteante. Os primeiros dias foram de otimismo. Os ecrãs do centro de controle brilhavam com sequências numéricas que rolavam mais rápido do que o olho podia seguir. Anya monitorava as métricas energéticas, inicialmente com curiosidade, depois com crescente alarme.
"Professor, o consumo está escalando exponencialmente. Já estamos consumindo a produção de uma central elétrica inteira," Anya avisou no terceiro dia.
"Inevitável, Anya. Estamos explorando território desconhecido. Apenas continue a monitorar," Arthur respondeu, com os olhos fixos nos números que rolavam, completamente hipnotizado.
Na semana seguinte, a situação se tornou crítica. O Colossus Z exigia cada vez mais energia. A CGRE, inicialmente entusiasmada, começou a entrar em desespero. Mas Arthur, preso na sua obsessão, insistiu para que continuassem. "Estamos perto de um avanço, eu sinto isso," ele murmurava repetidamente.
Então, as falhas começaram. Primeiro, pequenas, instabilidades na rede elétrica regional. Depois, apagões localizados. À medida que o Colossus Z devorava mais e mais energia, as redes elétricas ao redor do globo começaram a sobrecarregar. O mundo exterior, inicialmente alheio ao que se passava nas profundezas do Vale do Silício, começou a sentir as convulsões.
As cidades mergulhavam na escuridão. Apagões repentinos, falhas na Internet e em todos os sistemas de GPS. Os hospitais ficaram sem energia. Os bancos ficaram offline Os sistemas de comunicação colapsavam. O caos se espalhava como um incêndio global. As pessoas, confusas e aterrorizadas, procuravam respostas, mas a fonte do problema permanecia oculta, nas profundezas do centro de computação.
Anya, vendo o horror que se desenrolava, confrontou Arthur. "Professor, temos de parar isto! Estamos destruindo o mundo!"
Arthur, com o rosto pálido e olhos injetados de sangue, apenas abanou a cabeça. "Quase lá, Anya... quase lá... Só mais um pouco..." A obsessão tinha consumido completamente o corpo e a mente do professor.
No 21º dia do Projeto Googolplex, o ponto de ruptura foi atingido. O Colossus Z, no seu consumo voraz de energia, desencadeia uma cascata de falhas nas redes elétricas globais. Centrais elétricas desligaram em efeito dominó. As redes de distribuição entraram em colapso total. O planeta mergulhou numa escuridão sem precedentes.
Sem energia, sem internet e sem comunicação, o mundo moderno rapidamente desmoronou. As cidades tornaram-se armadilhas mortais. A lei e a ordem evaporaram. A infraestrutura essencial - água, saneamento, alimentos - deixou de funcionar em pouco tempo, devido a inúmeros saques da população e falhas na funcionalidade. A civilização se desintegrou em um caos tomado pela carnificina extrema causada pela falta de leis, ordem, e principalmente da tecnologia, no qual as pessoas tanto dependem para sobreviver.
No centro de computação, Anya, desesperada, tomou uma decisão. Enquanto Arthur, alheio ao cataclismo que tinha desencadeado, ainda murmurava números para os ecrãs agora escuros, Anya dirigiu-se ao painel de controle principal do Colossus Z, com as mãos trêmulas, desligou a chave principal.
O silêncio caiu sobre o centro de computação, um silêncio pesado e final. O Colossus Z, o computador que tentou contar o infinito, estava morto. Mas o dano estava feito.
Lá fora, o mundo enfrentava um inverno nuclear energético. A maioria das grandes cidades estava inabitável. A agricultura em larga escala era impossível sem energia. A população humana, dizimada pelo caos, fome e doença, enfrentaria sua extinção como civilização moderna.
A história do Professor Arthur Finch e da sua busca obsessiva para contar o incomensurável tornou-se uma lenda sombria, uma estória de advertência contada pelos poucos sobreviventes que rastejavam pelas ruínas do antigo mundo. O Googolplex permaneceu incalculável, intocado, um testemunho silencioso da arrogância humana e da nossa capacidade para a auto-destruição, mesmo na busca do conhecimento. E o professor tornou-se uma figura fantasmagórica nas ruínas da sua ambição, perdido para sempre no labirinto do infinito que tão ardentemente procurou desvendar.
Tal como uma antiga lenda grega, a ambição desmedida do Professor Arthur Finch ecoava a tragédia de Ícaro, que ousou voar demasiado perto do Sol com asas de cera e penas. Enquanto Ícaro, embriagado pela euforia do voo e ignorando os avisos do pai, ascendeu até à sua ruína quando o calor solar derreteu as suas asas, Arthur, preso na sua obsessão matemática, também se recusou a reconhecer os limites do seu empreendimento. Ambos, movidos por uma forma de hybris – uma arrogância que desafia os limites impostos pela natureza ou pela razão – caminharam cegamente para a catástrofe. Ícaro sonhou em dominar os céus, Arthur em domesticar o infinito através da computação. E tal como a queda de Ícaro foi uma lição sobre a presunção humana face às forças da natureza, o Projeto Googolplex tornou-se um amargo lembrete de que mesmo o conhecimento e a tecnologia, quando guiados por uma ambição descontrolada e desprovidos de sabedoria, podem levar à mais devastadora das quedas. Ambos os contos servem como um aviso perene: há limites que, quando ultrapassados com arrogância, trazem consigo consequências trágicas e irremediáveis.
Anya, uma das poucas almas sobreviventes, andava pelas praias abandonadas da Califórnia e todas as vezes olhava para o céu noturno, agora mais escuro e mais estrelado do que nunca, e perguntava se, em algum canto do universo, o infinito estaria a rindo da brevidade e da tolice da aventura humana. O contador do infinito tinha parado, mas o custo tinha sido a própria humanidade.